Não é uma história qualquer. É uma trágica experiência que se abateu sobre mim desde 1992. Fui surpreendida com um cancro no estômago. Nunca pensei que esse fantasma terrível me escolhesse para travar um duelo comigo. Lutámos ambos com objectivos opostos. Ganhar ou perder a vida era o destino de cada um. A morte, no entanto, era, para mim, o fim último que pretendia alcançar.
Lutei contra esse monstro com todas as armas que possuía (fé, oração, esperança e tenacidade). Depois de gastrectomizada total e radicalmente, enfrentei a o futuro com dificuldades, confesso, desde o alimentar-me até às consequências inerentes dos que ficam sem estômago, sem baço e sem a cauda do pâncreas.
Mas, embora o mundo, Deus, a vida, me parecessem cruéis e impiedosos com o susto que me pregavam, não desisti de viver e nem me entreguei voluntariamente à doença. Pouco tempo depois, já não pensava assim. Em 1994 o inimigo que estava dentro de mim sem eu o saber manifestou-se novamente; desta vez no intestino grosso. O que eu senti, é humanamente inexplicável porque, passar por outro drama semelhante ao anterior, era uma autoexigência física que excedia a minha capacidade de entender tanto fatalismo sobre o mesmo corpo.
Apesar disso não me rendi às circunstâncias e segurando-me numa força superior a que dou o nome de Deus, continuei a acreditar na vida e a lutar contra os invasores que teimam em aniquilar-me e destruir-me. Fui, então, fazendo o que era da minha competência, nomeadamente
sujeitando-me aos tratamentos de quimioterapia e exames periódicos de controlo para impedir que a doença não me vencesse.
Vivi a sensação da cura ao longo de sete anos, mas passado que foi esse tempo, outro pesadelo me atingiu. Quase me sufocou. Não é exagero, não! Agora era o intestino delgado a padecer de cancro. O terceiro. Oh! a ser verdade, já eram muitos! Parecia que o universo me esmagava só a mim. Não podia ser tanto fatalismo sempre em cima do mesmo corpo. Mas contra factos não há argumentos e os documentos contidos no meu processo nº 749088, no Hospital Geral de Santo António, falam por mim. São marcas que imprimem fidedignidade e, por isso, aos mais cépticos e aos mais curiosos digo que não estou a brincar.
Podem dizer: " uma pessoa que vence esses cancros todos não é infeliz. Bem pelo contrário, é assistida por defensores anónimos que acerrimamente a protejem".
Tendes alguma razão mas não toda, porque o martírio a que esta doença me expõs não tem peso nem medida, quer ao nível físico quer ao nível psíquico. Sofri tanto fisicamente que já perdi a noção da sua grandeza. Mas a alma dói-me tanto que os medos, e muitos são, perturbam-me enquanto durmo ou estou vigilante. Há dentro de mim um misto de sentimentos que me agoniza e se desfaz em lágrimas. Para além da doença tenho problemas familiares, designadamente a dependência do meu marido, vítima de sucessivos acidentes vasculares cerebrais que intensificam o transe do meu sofrimento.
domingo, 4 de maio de 2008
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